Teoria da tradução

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De maneira geral, os estudos da tradução são vistos sob duas óticas principais: a perspectiva tradicional e a perspectiva contestadora.


Perspectiva tradicional[editar]

Teóricos pesquisadores discutem que a perspectiva tradicional de tradução baseia-se na possibilidade de recuperação de um sentido, uma mensagem, um conteúdo que, supostamente, estariam guardados no texto de partida, da mesma forma que objetos são mantidos em uma gaveta ou tesouros são depositados em um baú. Esse sentido, mensagem ou conteúdo estariam prontos no texto, nas palavras que deixam vazar o pensamento e a intenção do autor, e são tidos como transparentes e estáveis. A tarefa do tradutor seria, simplesmente, encontrar e decodificar esse sentido, mensagem ou conteúdo de maneira correta e realizar um trabalho de transferência, transposição, reformulação ou ainda recodificação em outra língua.

A esse respeito, Nida assinala que a tradução é um mecanismo de transferência capaz de transportar sentidos e mensagens de uma língua para outra. Para tanto, o tradutor deveria ser capaz de ver, de maneira clara e transparente, os pensamentos e ideias do autor, os quais estariam inseridos no texto, e reduzir ao mínimo sua intervenção para que não ocorressem desvios.

Essa noção de tradução envolvendo transferência também aparece nos dizeres de Theodor e Rónai. O primeiro autor postula que o tradutor tem por obrigação resgatar o que foi dito pelo autor de forma correta, sem equívocos, interferência ou desvios. Enquanto o autor pode dizer o que sente, o tradutor deve dizer o que o outro sentiu. Nessa medida, traduzir não é recriar e o tradutor não produz um texto seu, mas reproduz, sem interferências, um texto que é do outro. De maneira semelhante, Rónai defende que a tradução não se trata de mera substituição de palavras de uma língua para outra, mas da reformulação de uma mensagem em outras palavras, em um processo no qual o tradutor fala pelo autor do texto de partida, funcionando enquanto um instrumento de transporte.

A perspectiva tradicional de tradução compreende o sentido como fixo e transparente, algo que está disponível e, portanto, é recuperável. Sendo assim, o papel do tradutor nesse processo é o de resgatar, de maneira intacta, o sentido, a mensagem ou o conteúdo presentes no texto, sem imprimir sua subjetividade na tradução. O tradutor não é produtor de um texto seu e o ato de traduzir não é considerado recriação, mas algo inferior em relação ao “sagrado” texto original.

Perspectiva contestadora[editar]

O fio condutor de suas discussões dos autores que defendem a perspectiva contestadora apresenta a constante valorização do trabalho do tradutor, enquanto sujeito atuante, cuja voz está presente no processo tradutório. Além disso, o trabalho de tradução não tem por objetivo buscar o sentido, a mensagem ou o conteúdo contidos no texto de partida, mas se trata de um trabalho realizado a partir da interpretação do tradutor, a qual é determinada não só pelas pistas que o texto fornece, mas, sobretudo, por fatores externos.

Nessa perspectiva, a tradução acontece enquanto materialização de uma das leituras possíveis, realizada pelo tradutor enquanto sujeito sócio-histórico, o qual é um dos leitores possíveis do texto de partida e situa-se em condições particulares de leitura que ativam conhecimentos específicos. Significativa importância é dada tanto às condições de recepção do texto, ou seja, às condições de leitura enquanto uma atividade ativa, um trabalho de construção de sentidos, quanto às condições de produção. Sob essa visão, o texto traduzido não é considerado uma recuperação, um mecanismo de transporte ou ainda transferência de uma mensagem, conteúdo ou sentido, mas uma produção, o que implica o trabalho sobre um texto outro.

O tradutor, enquanto um dos leitores do texto de partida, constrói os sentidos deste e desde o início tem um papel ativo na sua produção, agindo e transformando-o no processo tradutório. Sendo assim, esse papel não pode ser reduzido ao transporte de sentidos, mensagens ou conteúdos, mas deve contemplar seu caráter autoral, ativo e transformador. Se o tradutor exerce um papel ativo na leitura e na produção da tradução, não se pode negar que sua voz estará sempre presente no texto traduzido, em todas as suas escolhas. Trata-se de um processo de decisão no qual o tradutor se vê em meio a diferenças e, na busca por termos que sejam coerentes com sua leitura do texto de partida, encontra-se no entre-lugar da indeterminação, em um caminho onde os aspectos culturais e ideológicos operam ativamente, materializando a voz de um sujeito inserido em uma sociedade e na história, e sinalizando para o fato de que esse tradutor não é dono e controlador do seu dizer, mas o resultado de uma série de vozes que o atravessam e o constroem. Essas outras vozes também ecoam nas palavras do texto: a voz do tradutor, a voz do autor do texto de partida, de outros discursos, outras ideologias. O texto, portanto, é visto não enquanto depósito de um sentido fixo e uma única voz, a do autor, mas como o cruzamento de várias vozes que possibilitam diferentes leituras e sentidos.

Referências:[editar]

Dissertação de Mestrado Legendagem e o processo tradutório: uma abordagem discursivo-desconstrucionista da tradução para legendas do documentário “Lixo Extraordinário”, Fernanda Silveira Boito, 2013.

[1] Notas do Tradutor e processo tradutório: análise e reflexão sob uma perspectiva discursiva, Solange Mittmann, 2003.

Tradução, desconstrução e psicanálise, Rosemary Arrojo, 1993.