Tradução técnica

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À procura de uma definição[editar]

Não há uma definição unanimemente aceita para tradução técnica. Para alguns, é tudo aquilo que não se pode classificar como tradução literária. Para outros, só inclui o que se relaciona com indústria. Entre os dois extremos, ficam, por exemplo, a tradução médica e a jurídica. Por outro lado, certos assuntos, como filosofia ou teologia, são extremamente técnicos, embora os tradutores que se dedicam a eles dificilmente veriam a si próprios como tradutores técnicos.


Alguns afirmam que seria possível considerar uma categoria denominada tradução científico-técnica, que incluiria tanto a tradução científica como a técnica, baseando-se no fato de ambas trabalharem com informações que, em diversos graus, se apoiam em trabalhos de cientistas. Porém, autores como Byrne (2006) sustentam a ideia de que tradução científico-técnica é um termo difuso, genérico demais, e que, na verdade, não seria exato, já que existem diferenças significativas entre as definições de ciência e tecnologia. Enquanto a primeira se ocupa de conhecimento fundamentado na observação e a experimentação, testado de forma crítica, sistematizado e presentado segundo princípios gerais, a segunda se relaciona com a aplicação do conhecimento científico para fins práticos. Assim “os textos científicos seriam aqueles que explicam a ciência, enquanto os textos técnicos tratam da aplicação do conhecimento científico para fins práticos” (Byrne, 2006, p. 8-9).


O fato é que a tradução técnica é considerada há muito tempo como "o patinho feio" da tradução, especialmente nos círculos acadêmicos, algo assim como uma tradução de segunda divisão, especialmente quando comparada com a tradução literária (Byrne, 2006), e sem o charme, por exemplo, da legendagem de filmes, seriados e videogames. Por isso, os trabalhos que oferecem reflexões teóricas sobre tradução técnica são limitados, tanto em termos numéricos como no que se refere aos assuntos abordados. Isso vem se revertendo nos últimos anos e a área vem ganhando espaço crescente nas pesquisas, em um esforço por adequá-las à realidade da tradução técnica moderna. Independentemente do espaço ocupado no âmbito acadêmico, é inegável a sua importância, tanto econômica como em termos de volume. O peso da tradução técnica no mercado é indiscutível: segundo autores como Kingscott (2002) e outros, 90% das traduções realizadas no mundo todo (e aproximadamente 70% das traduções realizadas no Brasil) podem ser classificadas como traduções técnicas.

Diversas características conferem à tradução técnica certa singularidade e permitem diferenciá-la, grosso modo, de outros tipos de traduções. Porém, é importante salientar que essas características não são exclusivas dos textos técnicos, não estão presentes na totalidade dos textos técnicos e são insuficientes para defini-los de forma absoluta, considerando a imensa diversidade tipológica existente na atualidade.

A primeira característica que poderíamos mencionar é que a função dominante de boa parte dos textos técnicos, e consequentemente da sua tradução, é informativa ou didática. Ou seja, eles são redigidos basicamente para transmitir uma informação de forma precisa. Isso implica que o critério principal ao traduzir grande parte dos textos técnicos deve ser informativo ou didático, em lugar de estético (como acontece na tradução literária). Isso pode impor ao tradutor uma tendência a certas escolhas na redação, como privilegiar frases curtas, evitar ambiguidades e estruturas gramaticais complexas e repetir termos em uma frase para manter a clareza da mensagem, para mencionar só algumas.

Uma segunda característica que poderíamos destacar é a obrigatoriedade do uso das chamadas línguas de especialidade ou terminologia. Por estar restrita a um campo do saber específico, a tradução de textos técnicos exige o uso de terminologia também específica, aquela compartilhada e amplamente aceita pelos destinatários da tradução. Isso faz com que o tradutor encontre uma limitação no seu universo terminológico e, em muitas ocasiões, deva deixar de lado preferências pessoais ou norteadas por outros critérios e utilizar termos de uso consagrado na área na qual se insere o trabalho que está realizando.

A terceira característica seria a presença relativamente frequente de repetições, tanto intratextuais como intertextuais. Por diversos motivos, é comum encontrar frases que se repetem, de forma total ou parcial, dentro de um texto ou entre textos que fazem parte de um mesmo projeto ou pertencem a um mesmo cliente. Aliás, esse é um dos principais motivos que impulsionou o desenvolvimento das ferramentas de tradução assistida por computador (ou CAT Tools), amplamente utilizadas em tradução técnica (embora também tenham sido adotadas em outras áreas).

Algumas concepções errôneas sobre a tradução técnica[editar]

Como afirmamos antes, as características acima descritas não são suficientes para descrever a grande diversidade dos textos que poderiam classificar-se como textos técnicos. Ainda mais, limitar-se a elas poderia conduzir a uma simplificação excessiva e ao reforço de certas concepções errôneas cristalizadas ao longo do tempo. Byrne (op. cit.) cita várias delas, para depois desconstruí-las.

Uma dessas concepções errôneas é que o único aspecto importante na tradução técnica é o domínio da terminologia. Embora a terminologia ocupe um lugar de destaque na tradução técnica, conhecer os termos apropriados não tem tanta importância como saber escrever um texto na língua de destino considerando muitos outros fatores, como as convenções, a estrutura, a adequação ao público-alvo, etc. O conhecimento da terminologia seria suficiente para criar um glossário, mas de forma alguma da conta da redação de um folheto publicitário sobre um novo aparelho para facilitar a vida dos pacientes com diabetes, para citar um exemplo. Além disso, os termos específicos, na verdade, só constituem uma percentagem muito baixa da totalidade do conteúdo: segundo Newmark (1988), de 5 a 10%. Nenhum conhecimento terminológico, portanto, é capaz de substituir a clareza na redação e o conhecimento das estruturas das línguas de origem e destino. A utilização da terminologia correta é, portanto, uma condição necessária, mas de forma alguma suficiente para o tradutor técnico.

Outra concepção errônea mencionada por Byrne é que o estilo não é importante em tradução técnica. Na verdade, o estilo é tão importante nos textos técnicos como em qualquer outra área da tradução. Como afirma o autor, muitos textos técnicos falham não por erros terminológicos, mas porque não conseguem oferecer uma leitura fluida. Por outra parte, a diversidade tipológica dos textos técnicos na atualidade supera a ideia obsoleta de que tradutores técnicos seriam simples tradutores de manuais. A produção de documentos técnicos multilíngues de natureza muito variada, que responde a uma nova demanda de comunicação de um mercado global, impulsiona a criação de documentação na qual, muitas vezes, é difícil distinguir o produto, o marketing e o material técnico, que aparecem reunidos de forma difusa em um mesmo texto (Cámara, 2001). A área de tecnologia da informação é um claro exemplo disso, onde a tradução de um site institucional, uma apresentação de uma companhia ou uma brochura de um produto exige tanto conhecimento técnico, quanto domínio da linguagem persuasiva da publicidade.

Uma terceira concepção errônea é a ideia de que a tradução técnica não é criativa, já que implica só um processo de transferência reprodutivista. Apesar de o tradutor técnico estar mais restrito as suas opções estéticas, não se deve exagerar a aparente simplicidade dos textos técnicos. Em muitas oportunidades, a tradução técnica exige boas doses de criatividade para resolver problemas, achar equivalências e conseguir comunicar com sucesso uma mensagem. Considerar que os textos literários detêm o monopólio da expressividade e da criatividade é uma ideia excessivamente simplista (Zerhsen, in Byrne, 2006).

Bibliografia[editar]

BYRNE, J. Technical Translation: Usability Strategies for Translating Technical Documentation. Países Baixos: Springer, 2006.

CÁMARA, L. El papel de las herramientas TAO en la documentación técnica multilingüe. Revista Tradumàtica, número 0, 2001.

KINGSCOTT, G. Technical Translation and Related Disciplines. Perspectives: Studies in Translatology, Vol. 10, p. 247-255. 2002.

NEWMARK, P. A textbook of translation. London and New York: Prentice Hall International (UK) Ltd, 1988.