Tradução e violência

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Tradução e violência

Diversas teorias demonstram que a tradução, pensada como um processo de conversão, pode ser comparada a um ato de violência com base em premissas sexistas: em primeira instância, apoiadas por procedimentos de dominação machista e, em segunda instância, em termos de denúncia feminista. O texto em língua fonte visto como a mulher que cede aos encantos do amante sedutor (tradutor) e se converte em outra (um dos pilares das belles infidèles), ou seja, uma relação de passividade logocêntrica dá lugar a outra relação, desconstrutivista, na qual se instala uma relação orgiástica entre autor, tradutor e os diversos leitores da obra. Não obstante a corrente a seguir, espelha-se sempre uma relação de mais forte/mais fraco, darwinizando um processo que poderia ser menos agressivo se as demandas de cada idioma fossem atendidas na passagem de um idioma ao outro, com respeito absoluto à diferença e compreensão da diversidade. Contudo, voltaríamos assim ao ponto de partida: se bela, não pode ser fiel; se fiel, não pode ser bela. Sem saída satisfatória, precisamos nos decidir por uma estratégia que transgrida ao mínimo as convenções de ambos os idiomas. Talvez a origem do mito de impossibilidade da tradução se dê pelo pudor excessivo dos tradutores perante o autor, figura ainda sacralizada. Então se produz à larga reescrituras ora pedantes, ora falhas, e se esquece do papel de tradutor como autor do texto na língua alvo, aquele que tem o "poder" de transmutar uma mensagem de um idioma em outro texto, com outro ponto-de-vista, outras experiências, visão de mundo e estruturação e, ao mesmo tempo, apresentar o mesmo texto, a mesma essência, o mesmo estilo do autor da língua fonte. Em vez do jogo de submissão ou de dominação, podemos trabalhar na direção de um processo de compensação que se assemelha à própria vida, na qual se perde de um lado e se ganha muito em outros aspectos. Pode parecer simplista tal pensamento, mas de modo geral (pensando a tradução como uma "ciência" de ganhos e perdas constantes), não há maneira de entrar no jogo tradutório sem assumir o risco da perda. E as alegrias dos ganhos. Em seu último livro sobre tradução, Mouse or Rat? – Translation as Negotiation [1], Umberto Eco discorre sobre este fenômeno aparentemente óbvio e, talvez por isso ignorado, da negociação dentro do processo tradutório. Ele observa a questão em diversos níveis, tanto como tradutor quanto como escritor traduzido, que em certa medida interfere nas traduções das línguas que conhece. Ou seria melhor dizer que orienta os tradutores quanto às escolhas dentro do que ele originalmente escreveu em italiano. Entre perdas e ganhos, ele enxerga a beleza das operações tradutórias que são necessárias, em diversas de suas obras, para se manter o efeito em detrimento das palavras. A tradução ainda é vista como uma operação semi-mecânica, na qual o tradutor conhece as palavras [todas?] do original e simplesmente as transforma no idioma para o qual se traduz. Se assim fosse, fácil seria. Inclusive qualquer máquina bem-treinada o faria com a maestria dos nossos melhores profissionais, e sem errar o subjuntivo, como diria uma grande amiga e respeitada tradutora. Como em outras atividades humanas, a negociação ainda é o melhor meio de se chegar a um consenso. E, num processo tão complexo como a tradução, no qual não estão em jogo apenas palavras, mas mensagens, intenções, impossível que não haja perdas grandes e ganhos que, por mínimos que sejam, compensam. Pelo simples fato de que, sem a tradução, o empobrecimento cultural seria abismal, a distância entre os povos seria muito maior e o conhecimento – em todos os seus níveis – prejudicado. Enxergar a tradução como mal necessário, portanto, não espelha apenas desconhecimento do trabalho exigido na busca pelo termo mais adequado, pela estrutura mais apropriada, pelo tom correto para este ou aquele discurso, mas também o monstro criado pelo passado sombrio no qual trocadilhos como Traduttori, traditori eram lemas canhestros, até mesmo entre os profissionais.