Marca pessoal e invisibilidade

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O texto abaixo, dividido em três seções, retoma considerações que apresentei no Colóquio de Tradução da Unimep, em Piracicaba, em 2010. O tema central era a presença de um tradutor em seu texto, voluntária ou não, consciente ou não.


I. Marca pessoal

Como minhas exposições costumam ser de tipo “agonístico”, isto é, adotando como ponto de partida um argumento contrário, tomei como pano de fundo uma posição tradutória ainda hoje existente no Brasil, a qual afirma que uma boa tradução não traz ou não deveria trazer a “marca pessoal” do tradutor.

Considero esse tipo de concepção, além de ingênuo, simplesmente insustentável, uma impossibilidade lógica, ontológica, empírica, o que for. Pois é evidente que toda tradução* carrega a marca de quem a escreveu: seja em termos históricos e culturais, seja em termos estilísticos e estruturais, seja no simples plano mais imediato da escolha vocabular. E isso me parece tão evidente que dispensa maiores argumentações.

Obs.: Na ocasião, tratamos do campo específico de tradução literária e de humanidades, mas alguns aspectos provavelmente se aplicariam também a traduções técnicas e científicas.

Em todo caso, num exemplo simples, basta pensar nas inúmeras traduções de Shakespeare em língua portuguesa. Se se supusesse possível uma tradução sem a “marca pessoal do tradutor” e, ademais, que essa hipotética ausência de marca fosse um valor positivo, teríamos que apenas uma delas seria “boa”. Aí, secundariamente, teríamos até uma outra questão, a meu ver bastante engraçada e talvez crucial: quem determinaria, entre essas diversas traduções, qual é a “impessoal” e, por extensão, “boa”? (É claro que aqui estamos falando de traduções com um nível razoável de proficiência linguística.)

O público presente no colóquio era composto por estudantes de graduação e pós-graduação em língua inglesa e tradução. Para preparar a demonstração prática de meu argumento contra a ideia da “neutralidade” ou impessoalidade de qualquer texto de tradução literária e de humanidades, pedi a dez dos presentes que traduzissem ali na hora o parágrafo inicial de Walden – a escolha do trecho foi arbitrária: minha tradução dessa obra acabava de ser publicada pela L&PM e, embora eu ainda não tivesse visto o livro impresso, sua lembrança estava fresca em minha memória. São poucas linhas bastante simples:

When I wrote the following pages, or rather the bulk of them, I lived alone, in the woods, a mile from any neighbor, in a house which I had built myself, on the shore of Walden Pond, in Concord, Massachusetts, and earned my living by the labor of my hands only. I lived there two years and two months. At present, I am a sojourner in civilized life again.

Como era de se prever, entre as dez traduções não havia duas iguais e, sob um microscópio, nem remotamente parecidas. Tirando um mínimo deslize em um ou dois casos, todas davam conta do recado. Some-se a isso que há três traduções brasileiras de Walden, também bastante diferentes entre si. Qual, então, seria a “boa”? Qual não traria a “marca pessoal” do tradutor? Um problema.

O que quero dizer é que as linhas tradutórias que invocam uma suposta objetividade ou impessoalidade da obra de tradução são, por trás de sua ingenuidade de superfície, tremendamente normativistas e balizadas por critérios nada transparentes. Pois, para escolher uma entre treze alternativas com graus equivalentes de proficiência, há de se empregar algum critério.

E se, para escolher uma delas (“esta aqui é a boa”), invoco como critério uma pretensa impessoalidade (“e é a boa porque não tem a marca pessoal de quem a fez”), estou, em primeiro lugar, ocultando o fato de que HÁ, e irredutivelmente, uma marca pessoal - tanto é que ela não se confunde com as outras doze, que também são inconfundíveis entre si.

Mas, em segundo lugar e principalmente, não estou deixando claro qual é o critério que me faz escolher esta e não outra. Se o critério não é claro, ele não pode ser entendido, avaliado, julgado, aceito ou refutado: em suma, é dogmático. Esse ocultamento dos critérios para a escolha de uma alternativa – sob o pretexto meramente postulado, mas indemonstrado, de que uma boa tradução não poderia ou não deveria trazer marcas pessoais do indivíduo tradutor – constitui, a meu ver, um dos principais problemas que uma tradução minimamente proficiente enfrenta na atualidade editorial brasileira. Mas este já é outro problema.


II. Autoria e responsabilidade

Consideramos então que estava suficientemente demonstrada a impossibilidade de existir uma tradução única, mesmo de um trecho curto e simples – a menos, claro, que decidíssemos que nove alternativas eram ruins e apenas uma era boa, e aí a questão seria apresentar e justificar os critérios para esse juízo. Como não vimos nenhum critério capaz de sustentar essa hipotética decisão, fomos em frente, aceitando a existência de várias alternativas plenamente viáveis e aceitáveis para a tradução daquele trecho.

Essa marca pessoal que cada um dos participantes imprimiu em sua tradução é que, argumentei eu, constitui a base para o reconhecimento jurídico – desde o século XIX – do tradutor como autor de uma obra dotada de identidade própria. Assim, tradução é obra: é derivada de uma obra originária, claro, mas nem por isso deixa de ser, em sua esfera própria e limitada, uma obra pessoal, original, intransferível. Por outro lado, isso não tem nada a ver com "co-autoria", que são outros quinhentos. Uma tradução não é uma coautoria, a despeito do que alguns possam pensar - é simplesmente uma "obra derivada". Anule-se essa identidade, anular-se-á a figura moderna do tradutor. Evidentemente, isso sempre pode ocorrer, e os conceitos de autor e autoria também são historicamente datados e determinados.

Pois o que importa é que os fundamentos para que o tradutor seja juridicamente definido como pessoa portadora de direitos de autor têm uma anterioridade não só histórica, mas lógica, que independe dessa sua definição jurídica: mantêm-se os mesmos, quer o tradutor seja tido como autor ou não. Eles consistem justamente no fato inescapável de que cada obra de tradução tem uma identidade própria. E essa identidade própria decorre, evidentemente, das marcas pessoais que o tradutor imprime em seu texto, derivado do texto de origem.

E aqui chegamos a um ponto que me parece central: se por um lado as marcas pessoais de uma obra de tradução lhe conferem identidade própria, por outro lado é evidente que o tradutor é responsável pelo menos por uma parte das características presentes em seu texto de tradução. Neste sentido, entendo que negar ou querer abolir as marcas pessoais que imprimimos em nossa tradução é abdicar ou se esquivar à responsabilidade que temos por aquele texto que escrevemos.

Assim é que, em meu entender, o postulado de que uma boa tradução não guarda ou não deveria guardar a marca pessoal do indivíduo tradutor, além de ingênuo e dogmático, vem acompanhado também de uma espécie de apologia da irresponsabilidade. No momento em que o indivíduo tradutor pensa que, ao traduzir, pode se abster de deixar sua marca pessoal no texto de tradução, ele se exime de responder pelo que faz: coloca-se na posição de um mero instrumento transmissor supostamente neutro [e é claro que mesmo esta imagem é enganosa, pois não existe meio, qualquer que seja, que não exerça interferência na transmissão].

Mas, seja qual for a imagem, essa abdicação da responsabilidade por nosso texto de tradução muitas vezes se expressa na batidíssima frase, incrivelmente obscura e abstrusa, que já ouvi invocada várias vezes para justificar uma escolha X ou Y num trabalho de tradução: “está assim no original” ou "é assim que está no original”.

E aí eu pergunto: mas o que significa “está assim no original”? Pois é exatamente disso que se trata: um texto traduzido NÃO ESTÁ ASSIM no original. O texto traduzido está como o tradutor o redigiu a partir do texto de origem, passando pelos mais variados e diversos níveis de apreensão, interpretação e escolha. E é esta a responsabilidade do tradutor: na medida de suas limitações pessoais e determinações histórico-culturais, tentar perceber como está traduzindo, qual partido está adotando. Até onde consigo entender, a maneira mais coerente de nos responsabilizarmos por nossos textos de tradução é reconhecer que eles são construídos a partir de critérios e decisões que adotamos perante os textos de origem. E, evidentemente, é melhor saber do que não saber quais são eles.


III. Invisibilidade

Mas, quando falamos em coisas tão grandiosas como pretensa neutralidade, originalidade, responsabilidade, na verdade falamos de coisas muito simples.

Pois, na esteira da negação da “marca pessoal” na tradução, aparece, como consequência quase natural e automática, a ideia de que o desejável é que o tradutor seja invisível. Isso é um pouco complicado, porque aqui se misturam dois planos que, a meu ver, são muito distintos: o tradutor como sujeito empírico e a obra de tradução em sua materialidade, mas não trataremos disso agora. O que há é que, quando se fala em “invisibilidade” do tradutor ou da tradução, seja em sentido positivo ou negativo, costumamos entender que o termo se refere a um tipo de texto traduzido que não mostra, deixa oculto, esconde, mantém invisível – ou como se queira dizer – o trabalho executado durante a tradução. E que tal resultado é obtido com maior frequência pelo tradutor que tenta deliberadamente não deixar sua marca pessoal na tradução.

Então, a pergunta que se coloca é: mas, afinal, o que seria a marca pessoal que deixo numa tradução? Aquilo em que ela se afasta do original? Mas como, no que ela se afasta do original? Peguemos um exemplo muito simples e conhecido, talvez até forçando um pouco o argumento para fins de clareza da exposição: diante de I swam across the river, o que faríamos? Traduziríamos “eu nadei através do rio”? Pois afinal é assim que está no original:

I = eu Swam = nadei Across = através d’ The = o River = rio

Portanto: eu + nadei + através d’ + o + rio.

Não interfiro, atenho-me estritamente ao original, as palavras passam através de mim como instrumento de transmissão: não deixo minha marca pessoal.

Não faz mal que em português ninguém nade “através” de um rio, pois aqui, hipoteticamente, o que importa é que não posso ou não devo colocar minha marca pessoal – no caso, meu domínio ou minha relação com a língua materna. Em minha língua materna, ouço, falo, leio, escrevo: “atravessei o rio nadando”, “cruzei o rio a nado”, “atravessei o rio a nado” ou similares.

Por outro lado, perante a mesma frase em inglês, eu não reagiria em português dizendo “nadei pelo rio” ou “fui nadando pelo rio”, pois eu acharia que o “pelo” não esclarece se nadei de uma margem à outra ou pelo rio abaixo, se fui no sentido da largura ou do comprimento, enquanto across dá claramente o sentido do movimento. Por outro lado, ainda para a mesma frase, não desdenharia nem torceria o nariz se um colega se saísse com um “nadei até a outra margem do rio”.

Assim, o que se coloca é a naturalidade da língua, a frequência de uso de tal ou tal formulação na língua. E não apenas a frequência no português, mas em primeiro lugar a utilização na língua de partida. É usual dizer “I swam across the river” em inglês? Sim, tremendamente. É como se diz. É normal, comum dizer “Eu nadei através do rio” em português? Não, nem um pouco. É no mínimo bizarro.

Então, onde a tradução se faz mais visível? Em “Eu nadei através do rio” ou em “Atravessei o rio a nado”? Claro que a tradução aparece mais no primeiro caso. Fica visível a estrutura do original, fica evidente o decalque.

Mas não foi justamente aqui que o tradutor tentou não deixar sua marca, tentou ficar invisível? Sim, com quase toda certeza sim. E não foi justamente aqui que seu trabalho de tradução ficou mais visível? Sim, com toda certeza. Inversamente, na solução“atravessei o rio a nado” ou mesmo na mais puxada “nadei até a outra margem do rio”, ambas resultantes de uma intervenção mais marcada do tradutor, seu trabalho se faz menos visível ou mesmo praticamente invisível: como dizem, “nem parece uma tradução”.

Portanto, num paradoxo que me parece interessante, teríamos que o trabalho consciente do tradutor, ao elaborar atentamente seu modo de atuação e imprimir decididamente sua marca no texto, tem muito maior probabilidade de alcançar em sua tradução uma fluência, uma naturalidade similar à do texto de origem. Dito em outros termos: quanto mais claro e consciente for o trabalho de imprimir no texto de tradução sua marca pessoal, mais invisível será o processo da operação tradutória no resultado final.

Naturalmente, o pressuposto aqui, e que não tivemos muita ocasião de explorar nesta ocasião, é que, pelo menos num nível simples e básico, estou considerando a chamada “invisibilidade” da operação tradutória como um valor positivo, capaz de ser alcançado com maior segurança pelo exercício sistemático de imprimir um perfil pessoal na tradução, tendo como um dos principais critérios para guiar as escolhas a preservação do tipo de linguagem presente no texto de partida.


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